domingo, setembro 20, 2015

Subterfúgio n•2

Você que me vê 
De algum lugar do teu forte, seguro 
De algum lugar do teu "medo de tudo"
Com o mundo ao teus pés 
e os olhos nas janelas da noite. 
E eu que te vejo
De algum lugar, perdida, no escuro
Dia mais dia ouvindo esse grito mudo
De que "está tudo bem, mas..."
"Mas, e se, enfim..."
E assim, não te deixo ir embora 
Embora, sabemos, já passou da hora. 
E fica
Fica 
Não vai... 
Como o passado não passa?
Eu procuro os sinais
E encontro fantasias bonitas
Qualquer placebo me satisfaz. 
A culpa é sua?
A culpa é minha!
Você não me vê... 
É só uma ideia bonita que eu guardei 
Do que costumava saber de você.

quinta-feira, setembro 10, 2015

Não era uma noite tão bonita. Estava acostumada ao ambiente, e a princípio nada havia ali que merecesse uma atenção especial. O lugar era alto, constantemente iluminado e ficava pela passagem de muita gente. 

Em meio às idas e vindas de todos aqueles corpos estranhos, estava uma mulher. Ela parecia petrificada, apoiando-se no parapeito e o olhar catatônico rumo à paisagem.

É curioso como muitos atribuem charme à tristeza, principalmente se ela está estampada no rosto de uma mulher... Talvez o mistério nos olhos de alguém que sofre em silêncio desperte a curiosidade e a empatia do observador desconhecido. Talvez seja instigante ver a vulnerabilidade imóvel diante de um possível "herói". Talvez seja só confortante ver a incompletude de um ser... Afinal, há alguma alma ilesa à dor de existir?  

Ela não parecia comprometida com o tempo. Não havia qualquer sinal de planos para acabar com aquele instante. Nada que a fizesse recobrar a consciência e abandonar aquela contemplação... Permanecia imóvel. 

Decidi então me aproximar. O que será que havia de tão especial à vista que roubou aquela mulher pra si? A resposta era muito mais grandiosa do que qualquer coisa que pudesse sonhar. Bem ali, na minha frente, deparo-me com TUDO. 

Era uma imensidão. O mar, os barcos, a areia. Na rua as luzes dos carros, que pareciam dançar ao cursar seus caminhos. E ventava muito, um vento úmido que anunciava a chuva que estava por vir. Havia prédios, cores, árvores... Havia bichos, gritos, crianças, idosos, namorados, solitários, música, buzinas... Havia a mente de todas aquelas pessoas, a história de tudo o que os olhos alcançavam... Havia nada menos que tudo.  

Foi então que eu pude sentir o que a mulher fazia ali: Ela sabia que ela era o céu, o mar, as pessoas, as cores, os barulhos. Ela também era o vento e a chuva que não demoraria.. Ela era o sol e a lua escondidos e todos os planetas e estrelas que a presentearam com peixes... Ela contemplava a si e a vida, porque ela era toda aquela vida, mesmo que a vida não soubesse quem ela era. Mas tudo bem, ela também não sabia. 

Mesmo pequena diante da imensidão , suas dúvidas, anseios, dores, melancolias, amores...ela era o mundo. Fosse quem fosse, sentisse o que sentisse, ela era a arte da vida. Fazia parte de todo o mistério do universo que estava ali. 

Estava inundada de tudo naquele momento... Foi quando olhei pros olhos cheios de lágrimas daquela mulher e sequei o meu rosto. 
Aquela mulher era eu.