quinta-feira, setembro 18, 2014

Flores pra mesa 3

Andei perdendo muita coisa e gente esses dias e acabei ficando mais maluca que o normal. É que estava num restaurante, o mesmo que fomos quando você me deu o livro do Rubem Braga, porque sabia que eu o amava e disse: " - Não entendo como você consegue gostar tanto dessas histórias sofridas com pessoas fictícias. Um filme, pelo menos, acaba logo; seus livros são enormes!". Toda sua gentileza ácida que tanto nos uniu... Mas não era disso que eu ia falar.

Prosseguindo, voltei àquele restaurante. Pedi um suco de maracujá ( não tenho dormido, que novidade!) e assim que o garçom se foi, eu vi um casal. A mulher tinha se levantado para sentar-se ao lado do par. Beijaram-se muito, entre conversas e risos... Pareciam tão íntimos. Você sabe como admiro casais íntimos, esses que namoram há 6 anos, passam natais juntos, têm uma rotina conjunta, viajam, acompanham a mesma série, andam de mãos dadas com naturalidade... Enfim. Mas não era disso que eu ia falar.

Vendo esse casal, passei a ouvir a vida ao redor: A música ambiente, vozes misturadas, risos de todo tipo, talheres batendo nos pratos... A vida fluindo. Aconteceria estando eu ali ou não... Eu observava tudo fluindo, sem fazer parte de nada. Mas também não era sobre isso que eu ia falar.

O que eu queria dizer é que toda essa situação me fez perceber o quanto estava só, visto que na minha ultima visita àquele lugar,  tinha as palavras de Rubem Braga e teus olhos gigantes. Era agraciada com implicância e carinho, e todo aquele afago atencioso nas mãos.

Sabe? Daquele dia pra cá, as pessoas não têm sido muito pacientes com as minhas loucuras. Tão me fazendo acreditar que não sou merecedora do amor verdadeiro de ninguém... Tenho me machucado, sujeitando-me a apenas suprir carências de gente egoísta. Você brigaria tanto comigo se soubesse...E com razão. Ando totalmente fatigada e perdida com esse amor-próprio sádico que cultivo, esse mesmo amor ( ou falta de) que me fez questionar o que tínhamos e sair em "liberdade" por aí. Queria encontrar em outras pessoas algo que, na época ainda não sabia, mas possuía tão verdadeiro e valioso bem ali na minha frente: Eu tinha seus olhos grandes, suas mãos quentes e seu amor.... E hoje tenho só o mundo ao redor e um suco pra me ajudar a dormir.

Obrigada por ter me deixado te amar, mas principalmente, por ter me deixado ser dona do teu amor por um momento. Lembrar de você me fez lembrar que posso sim ser amada de verdade... Que saudade bonita e doce,  sejamos felizes!

terça-feira, julho 08, 2014

Anteposto

É claro
Posto que é honesto
Direto, reto
Como um corte
Um disparo
À queima pele
Queima e fere
A-Tira a roupa
Todo o corpo.
Encho o copo.
Absorto.

É você!
O que te traz
Repele
O que nos une
Difere
De nos aproximar
É você!
Fogo
Vem, incendeia
Foge
Vai, trapaceia
E me deixa queimar
Até me esvair
Até só lembrar
Que ar
Não se tateia:
-Inspira-
E tem que soltar

Sem rastros
Só vultos
Na memória
Um insulto
A quem te amei...
E o que sobrou?
Cicatrizes
Por te cortar
De mim

Vem me ver
Encosta tua pele
Na minha
Vai ver
Só com você
Não estou sozinha.


domingo, julho 06, 2014

Ordem do dia

Aviso desde já
Que isso não é um poema
É só discurso bobo
pra pôr um fim
no teu dilema.

-

Nem sempre os olhares
são aqueles contentes
olhares de amor
por te ver
Nem sempre os sorrisos
são só pra você
que agora os notou.
Tente aprender:
Nem sempre as bochechas
ficam rosadas
porque você elogiou.
Não venha me comprometer.
Nem sempre o que eu digo
eu disse a você
Não seja exibido
Nem sempre meus beijos
são tão verdadeiros
como já foram um dia
(Beijos verdadeiros...
Eu nem sei se poderia.)

Não tente só agora
desvendar meus mistérios
O que eu tenho comigo
É assunto bem sério
Que os anos trouxeram
Com o pesar de sentir.
E sinto, sinto muito
Senti antes,
Sinto agora
E sentirei depois
Independente de ti.
Eu sinto muito, amigo
O que eu tenho comigo
É só meu,
E de ninguém mais.
Vê se pára de se iludir.

quinta-feira, junho 19, 2014

Canções à vácuo

Eu queria conversar com você. Seria estranho a essa hora... Como em qualquer outra.

Pareço agora um instante, instável... Distante.
Não estou aqui e nem em lugar algum.
Sou como a ponta dos dedos dos pés, segurando todo o peso de um corpo que dança num muro. As atenções se viram à leveza das mãos, enquanto tento me equilibrar, desgraciosa. O espaço é estreito, o contato com a pele machuca... Um passo em falso e acabo com tudo.
Será que já caí?

Eu sou como aquele instante em que sua cabeça hesita "Vale a pena?" Quando alguém te demonstra carinho. Não, não vale.

E sou também aquela palavra que falta à tua boca... Perdida no vocabulário extenso de quem sabe lidar com palavras... Você improvisa, claro! Há sinônimos demais... E foi-se minha hora.

Sou um minuto de um sopro morno e sem cor, que às vezes te desconforta aos domingos...mas ah, na rua há cores, gente, barulho...sol. Meu sumiço é dado numa janela aberta.

Sabe o que mais? Sou aquele silêncio entre as suas duas faixas preferidas do CD que sempre está no carro... Você já se habituou, eu existo...Mas quem repara nisso? Os dias estão cheios!

Dias esses que estão me apagando em você tão depressa... Me alimentava de cores vivas, que vinham dos sinais de que meu lugar era por perto...

Instante. Instável. Distante...

Eu queria conversar com você! Será que já está dormindo?
Se sim, sou seu sonho bonito...

Que você jamais vai se lembrar quando for hora dos olhos se abrirem.

terça-feira, junho 10, 2014

Fogo sem calor

Você não se apaixonou por mim. 
O amor não é desses fios 
que cortam o céu e turvam a visão. 
Amor não brinca de morto e vivo
Ontem quis, hoje morreu 
Pra ser amor de verdade 
Você nem precisa de algo meu. 
Porque amor pode ser só
Coisa de um
Amor é nosso terreno
Não é relacionamento 
Uma coisa é uma coisa 
O namoro que é outra 
coisa de dois.  

Te escrevo por estar só, 
E porque foi só você 
Quem bagunçou tudo 
Ontem muito fala
Hoje fica mudo 
Te escrevo porque eu sei 
Que não fui eu que errei 
Não amontoei 
Nem carro, nem boi
Nem atropelei ninguém.
Se fujo um pouco 
E me calo 
Não é por medo 
Nem vaidade
É que, apesar da pouca idade 
Sei que amor tem segredos
Talvez,
Se nos conhecermos,
Com tempo, com serenidade
Talvez assim 
Vire uma verdade,
Amor não vira amor 
Tão cedo. 

sábado, maio 31, 2014

Aplauso de uma palma só

Ai, desse aperto no peito...
Eu que me vire com a dor
Inocente, me entrego num beijo
Tua boca retruca:
"Tá bom, eu deixo!"
Usa teus lábios como um favor

"Cê" sabe, moço
eu não me engano
Só mais essa vez me faço enganada
Aceito o sorriso
como se fosse meu
Sabendo que de mim você não quer nada

De resto, o que resta
É o que inventei de nós
A sós, finjo comigo:
"Tá bom
Tá bem
Eu nem ligo,
tenho outros também..."
E em um "ninguém"
Desconto o castigo.

[E sabe? Acho graça
De na mesa farta
Eu me compor de migalhas,
querer ser o mendigo.]

Tudo bem,
Não-amor,
Tudo bem...
Você que se cuide comigo
-Ou sem mim-
O dueto é bonito
Mas eu não preciso.
-Ou talvez sim-
E pra criar monólogo
De amor doído
Eu meu garanto:
Meu coração é perito.

sexta-feira, maio 09, 2014

Revela, Releva.

Ah, meus dias de chuva. Dias de coração partido e inquietude.
Não há nada evidente, aparente. Nada que já não estivesse ali antes.
O corpo todo dói e não suporta a alma que abriga, 
que briga. A mesma velha culpa sem ter a quem culpar.
Perdoe mundo, pela inveja preconceituosa de quem encontrou o amor, encontrou paz de espírito e conforto em ser quem é. Perdão pela revolta que rasga o peito até tremer os dedos, sempre que encontro respostas vazias, nenhum argumento...E ainda sim, me calo. Curvar-me à ignorância alheia me dói como um incêndio no estômago e não me ergo... Sempre exausta, sabe-se lá do quê. 
Perdoa a falta de energia para dedicar ao amor, não vejo caminhos, não vejo cores e nem desfechos bonitos em ninguém. Se há ou não boa intenção, não me importa. É tudo muito o mesmo pra quem já nasceu no tédio. Ainda prefiro os silêncios.
Perdoa o excesso de cautela com desconhecidos e o excesso de desapego aos que convivo, é só o fascínio pelo novo, não dura. Perdoa o enjoo de quem me jura amor. A loucura de querer a aprovação de muitos, mas não amor de alguém. Não há traumas, corações partidos, nem juras desfeitas... É só desencanto. Involuntária, incoerente. É como ler o mesmo livro linear, monocórdio e longo a cada vez que penso em me envolver. Não há ao que recorrer.
E que diabo é isso? Será que a gente já nasce assim meio torto?
Ah, Deus, como eu queria...Como queria ser a pessoa que foge da chuva e enlouquece com a possibilidade da doença, com o incômodo da água no corpo, do vento gelado, mas se alegra ao sentir o toque da pessoa amada. 
Que diabo isso em mim de contemplar a chuva e correr quilômetros para me encharcar, para sentir o vento que me toca sem zelo, só para me sentir viva... 
Eu só tentaria amar alguém com gosto de chuva.