domingo, setembro 06, 2020

Aeroporto em meio a uma pandemia e uma mulher chora. Chora muito. Copiosamente. É um choro com barulho, desses em que se falta o ar e o mundo ao redor não existe mais. Já sentiu isso? Uma dor que não dá pra controlar. Uma dor que foge do comportamento social, não se pode disfarçar quando somos esmagados por um elefante de existência. Uma dor que suga completamente a sua razão. 


Penso que alguém se foi. Penso em quem eu poderia perder para me sentir daquele jeito. Porque eu já perdi alguém e já me senti daquele jeito. Lembro de perder o movimento das pernas, do peito querer ir de encontro ao chão. Desconhecidos tentando me ajudar e nenhuma palavra saía da minha boca. Se eu as proferisse, aquilo seria real e eu não queria que fosse. Tudo em volta fica lento, você visita um purgatório no que acha que é a realidade. 


Mas bobagens passam pela minha cabeça também. E se aquela mulher teve problemas com um vestido de noiva que foi extraviado e era a gota final pra arruinar um casamento que já havia perdido tanto e que quase não acontecera? É isso. Há situações assim aos montes. Achamos que é importante demais e depois passa. Tomara que ela só tenha perdido um vestido e que ainda possa rir desse momento um dia. 


A dor de perder alguém nunca se transformará numa lembrança boba. Nunca. 


Depois de muitos contratempos, consigo pegar o vôo...O olhar das pessoas mudou muito: agora pessoas se olham como se a presença do outro fosse uma ameaça à sua vida.

Penso então no quanto somos primitivos e maquiamos esse comportamento ao longo dos anos. Civilidade. Existência. Consciência. Uma maquiagem muito pobre, já que o que nos move, continua intocado. O desejo pelo poder, sexo, prazeres...ou a busca de um significado pra se estar vivo. As dores mais latentes também, essas não se maquiam.


Dormi muito pouco, mais uma vez. Penso em descansar no vôo, me ajeito pra um cochilo. Fones de ouvido, e dessa vez ignoro meu livro. Fecho os olhos e respiro fundo, peço gentilmente que meus pensamentos me deixem em paz. 


A aeromoça chama: Aviso muito importante! 

Um homem se levanta. Fica nervoso ao lado dela, pega o microfone e se declara para a amada que está entre as últimas fileiras. “Momentos simples são incríveis ao seu lado, quero tê-la como companheira para o resto da minha vida.” O homem segue com a caixinha vermelha até o fundo do avião. Aplausos tímidos, todos parecem cansados. O casal se beija apaixonadamente. Penso comigo que espero mesmo que eles sejam felizes. 


Falhamos muito, somos cruéis. Mas também somos amorosos e sensíveis. 

Viver é se escorregar por um poço de lama sem saber quando vai dar pé...


A suscetibilidade humana me intriga. 

E me emociona também. 

Já se sentiu quase feliz? 

Temo estar nesse cenário. 

Explico melhor. 


Há um muro. Alguém anda sobre ele. Lá em cima o clima é bom, o vento toca o rosto com uma delicadeza que beira o amor. Você está no lugar em que queria estar. É quem consegue ser. Pudesse, silenciaria seus pensamentos... 

Está certa de que a felicidade está ali. 


Mas não pode.


Teme o gesto. 


O menor equívoco pode fazer-te rolar pelo desfiladeiro. 

Tudo a perder. 

Não é insegurança, não. É diferente. 

No fundo você sabe que não se pode evitar o grosso de si por muito tempo. 

O denso. 

O difícil. 

Você sabe que relacionamentos demandam trabalho, mas não sabe se alguém aguentaria por ti o que você aguentaria pelo outro. 

Você não sabe dizer se, caso fosse outro, aguentaria o que teriam de aguentar por ti.

Você não sabe mais como aguenta o que está em si. 

Aguentar é um verbo horrível. 

Lidar. 



Então...assobiar. 


Quando não se sabe qual movimento fazer, não faça nenhum. - ouvi isso uma vez e não me lembro onde. 

Crio música. 

Fico parada por um tempo e entendo que não há conforto genuíno em se equilibrar com tanto medo. 


Desço do muro. 


Me fiz andando em terra firme, apesar da leveza.

A minha consciência me cobra o preço. 

E eu aceito. 

Eu o pago. 


Ter uma quase-felicidade é não ter felicidade alguma. 

Ter um quase apoio, já é rolar pelo desfiladeiro. 

Quem constrói muro, não quer companhia. 

 

Você quer companhia?


Assobio e ando, inteira.

Vou construir meu abrigo. 

terça-feira, maio 14, 2019

Indigestão moderna

Eu tenho atraído moscas. 
Elas estão em mim. 
Por todos os lados só em mim. 
O lugar não importa, elas não vão embora. 
Devia me limpar e esfregar até a carne, mas elas não vão embora... a sujeira impregnada do silenciar das vontades da alma, meus desejos estão mortos e não há mais disfarce. 
Conservo uma ilusão mas não engano a natureza. 

O que está vivo sabe estar vivo?  

Obedeço minha intrínseca didática humana de seguir o fluxo como um rio, mas o rio não sabe que é rio. 
Eu sei. 
Sei que existo, que apenas tenho seguido sem pretensão de desaguar, e sei que não sou rio. 
Sorrio. 
Inconsciente doses de morfina, 
melhor ser tudo de menos, sentir dá trabalho de mais. 

Mais e mais bichos... 

Eles voando ao meu redor me obrigaram a cuspir essas palavras que cheiram a mofo. 

O céu me emocionava tanto...
Se um dia já fui poesia,
Hoje me alimento de moscas. 

sábado, julho 28, 2018


Escuro,
Breu de nós dois. 
O frio de fora
E o caos na sala.
Não sou em você 
A pessoa que tento 
Protejo teu mundo
Te sobram lamentos...

E se eu parar 
Ninguém vai perceber?
Nem adianta 
Se não for doer. 
Eu quero que doa 
Que rasgue a carne 
Te falte o ar. 
Preciso do estrago 
Quero ver não reparar. 

A gente se acostuma com o cuidado do outro 
E nada mais mortífero do que se acostumar. 


sexta-feira, janeiro 08, 2016

E a poesia nem foi minha

(...)

- "Entre o sim e o não cabe a você escolher." O que acha? 

- Acho sempre que talvez. 

- Sempre na dúvida...e pago pra ver o resultado. 

- Fiquei doente, acabei adiando minha ida. Mas domingo devo estar por perto. 

- Terei um domingo tranquilo. Talvez até segunda...

- Guarde uns minutos pra mim. 

- Sou uma pessoa de horas!

- Que sorte a minha, então. 

- Que sorte a minha você se preocupar com os minutos do meu tempo. 

- Eu nunca sei me expor. Não é que eu queira só minutos...

- Eu sei. De quantas horas você precisa pra ganhar uma vida? 

- De todas que eu tiver direito?

- Sabe em quantas você ganhou a minha? 

- Eu ganhei?

- Em menos de um sorriso. Nem deu tempo de pensar...

- Talvez eu devesse mudar meu pedido. 

- Qual pedido? 

- Você me guardaria alguns minutos do resto da sua vida?

domingo, dezembro 13, 2015

Amanhece no fundo do mar



                                               ("Solidão é uma ilha com saudade do barco" - Adriana Falcão)

Passei o dia com muito o que queria te falar engasgado na garganta. Deu-se em mim um tédio de tudo, como se não pertencesse a lugar algum nesse domingo lento. Eu precisava sair, ver gente, respirar ao ar livre, talvez até conversar com alguém novo... Mas fazer isso seria violentar-me. Eu não sei como reagiria, há muito para explicar, expor, há muito para se conhecer e há também uma total ausência de ânimo pra isso.

Eis que vi, passando pelos canais da TV, uma matéria sobre os destroços de um navio enorme que foi recentemente encontrado e o porquê de seu naufrágio seguia indecifrável. Pelas imagens, ficava claro que ninguém passava por lá há tempos... Havia uma história sendo apagada ali.

Engraçado...Um dia, aquele mesmo navio foi real. Carregava muita história, muita vida; tinha um plano traçado e seguia seu rumo. Até que não mais. Até, que por razões hoje desconhecidas, sucumbiu. Até que um dia, tornou-se apenas um amontoado de tralhas afundado e esquecido num canto do mundo.

Bom, o que eu queria dizer é: Não é louco que, num dia qualquer, sem motivo especial, tragam esse caso de volta às notícias?
Emerge-se o navio. Toda trama volta à tona, forte e cercada de mistérios. Regenera-se toda a existência perdida daquela matéria desmemoriada que ninguém sabe como acabou. Se bem que ao ser aflorado, não acabou por completo, não é mesmo? Eu não sei. Aquilo me pareceu tão vivo hoje, que senti que se você também quisesse, talvez o navio pudesse até voltar a navegar.

quinta-feira, outubro 22, 2015

Não me desculpe por te amar.



Se tem algo bom que aprendi nessa constante entrega à arte ao longo desses humildes 22 anos, foi que não devo me desculpar pelo o que eu sinto. Eu não devo me CULPAR pelo o que eu sinto...

Desconfio que grande parte dessas frustrações, dessa insatisfação com tudo e todos, dessa carência em aprender a ouvir e essa mágoa que nos assola, vêm desses sofrimentos velados.

Você, enquanto cresce, torna-se parte do pacto social de "não fazer o papel de ...", de "você tinha de ter pensado e feito isso" de "se você chorar você vai estar parecendo fraca, dramática" de " não, deixa isso pra lá..." e pronto: Aos poucos se transforma num molde -mudo- da normalidade.
Eu sou contra a acomodação sentimental, muito embora não esteja totalmente livre dela. No entanto, eu sei que não há certo e errado quando sou eu que estou sentindo... Se a dor é minha, expresso-a como posso. Se a alegria é minha, tenho todo direito de fazer o que eu quiser com ela... Assim como não busco premeditações sentimentais em terceiros.

Os emudecidos pela normalidade são seres altamente raivosos. A relação construída em meio a um caos de mágoa está pronta pra explodir ao menor sinal de turbulência. E como isso desgasta...

Desgasta eu gostar de você e não poder te falar, desgasta estarmos bem enquanto você não superou de verdade algum erro que eu cometi. - Se as desculpas não valeram, volte, exponha-se, deixa sangrar! Não esconda essa ocasião num canto da memória pra mais tarde escancará-la numa nostalgia de dores.- Desgasta não poder dizer que ainda penso sobre aquilo, que dói, que preciso das suas desculpas... E que agora o que eu sinto latente em mim, talvez não seja o que todos aconselham ser o melhor a se pensar e sentir. Desgasta não ser lembrada como um ser passível ao erro, visto que você também é.
-Corrói toda a amabilidade do mundo essa cultura de doutrinar sentimentos. -

Esse texto não tem um motivo específico, não tem "moral da história". Esse texto (pra quem o ler até o fim), é só pra dizer que eu não me sinto culpada por sentir, eu não me sinto constrangida por demonstrar. Que eu posso e quero aprender a ouvir melhor, eu jamais quero ser alguém irredutível. Que eu reconheço um mistério diferente dentro de cada um e que eu não consigo ser igual a ninguém.
Talvez esse texto exista só para lembrar-nos que não há uma outra vida, um grande dia especial em que possamos conciliar todos esses nós na garganta. Só há esta passagem de futuro impreciso para reforçarmos o amor que temos a quem amamos...Eu não posso deixar para te dizer depois que te admiro, que sinto muito, que reconheço seu esforço, que estou com saudades... Porque o depois não me pertence. E não há nada de mal em sentir, o que intoxica é acobertar.

Na verdade, eu só queria dizer que nunca vou me arrepender do que sinto,  porque os sentimentos são legítimos.
Eu nunca vou pedir desculpas por te amar.